QUANDO O REMÉDIO É VENENO

Há alguns anos atrás, reencontramos um parente desaparecido a muitos anos. Ele desapareceu sem deixar nenhuma pista de seu paradeiro. Contudo, uma pessoa da mesma cidade natal de meu pai foi trabalhar num hospital do Rio de Janeiro, e por causa do sobrenome reconheceu este parente. A família ao saber ligou para nós, por estarmos mais próximos dele, e com isso fomos buscá-lo.

O reencontro foi emocionante, felicidade para todos, porém, a esta altura, este parente já havia padecido muitas agruras, fome, frio, enfermidades múltiplas, havia perdido a esposa, estava desempregado, estava padecendo de diabetes e tinha um filho com mais de 20 anos de idade alcoólatra.

Eles vieram morar conosco em São Paulo, uma vez que a viagem para a Bahia seria penosa demais para ele. Compramos os remédios, prepararam-se refeições reforçadas, tudo na expectativa de sua recuperação. Entretanto, enquanto as atenções estavam centradas na enfermidade dele, seu filho se entregava ao álcool. E um dia, depois de estar completamente embriagado, foi até o quarto e tomou os remédios de seu pai. Mesmo com todo o esforço dos médicos para salvarem sua vida, ele veio a falecer.

Ele morreu por tomar remédio.

Ainda que tal atitude nos traga inconformismo, guardadas as proporções, muitos de nós usamos dos mesmos expedientes para exercitarmos nossa teologia. Muitas vezes agredimos os textos bíblicos com o intuito de melhorarmos sua interpretação; como exemplo torno o seguinte: "tudo posso naquele que me fortalece"(Fl. 4:13). O que queremos dizer(e gostaríamos que o texto dissesse) é que: eu tenho poder para fazer qualquer coisa nesta vida. Alguns acreditam que se dissermos isso todas as manhãs 7 vezes antes de sairmos para o trabalho (por ser o número da perfeição), tudo dará certo. Contudo, o texto, no seu devido contexto (Fl.4:10 a 12), nos ensina que Paulo tinha a experiência de que conseguia suportar tudo por causa do vigor recebido de Cristo Jesus seu Senhor.

As alegações para tal interpretação são as mais benéficas possíveis, porém, aplicam sobre o texto o método "impositivo", isto é, impõe sua preferência. E assim, mesmo com toda esperança de que sua abordagem ajude os outros, acabamos afastando-os dos caminhos de Deus, pois afirmamos que Deus exige de seu povo algo que Ele nem pensou em pedir. Alguns de nós acreditamos que conseguem entender todos os textos bíblicos sem ajuda usando este método infalível; afinal de contas é a Palavra de Deus. Mas Paulo nos adverte que ir além do que foi proposto pelos apóstolos é maldição e João afirma que os que fazem tal coisa não herdarão o Reino de Deus (Gl.1:8; Ap.22:18,19).

E assim, o que deveria ser o remédio mata o paciente envenenado.

Rev. Cesar Veríssimo Marinho dos Reis
Pastor da Igreja

 

     
     
  Site Map